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30/07/2016 07:51

Conquista da Libertadores da América de 1976 completa 40 anos

Conquista da Libertadores da América de 1976 completa 40 anos


Fotos: Arquivo Cruzeiro

Da redação

Angel Drumond 

A conquista que abriu os caminhos do Cruzeiro Esporte Clube para o cenário mundial completa 40 anos neste 30 de julho. A vitória sobre o River Plate, por 3 a 2, no terceiro jogo da final da Copa Libertadores da América, no estádio Nacional do Chile, coroou a espetacular campanha da equipe na competição continental de 1976. Foi o primeiro dos vários títulos internacionais do Time do Povo. Confira como foi a campanha cruzeirense que faz aniversário neste sábado.

Primeira Fase

O esquadrão cruzeirense iniciou a disputa sul-americana jogando no grupo 3 da competição e reeditando o clássico que decidiu o campeonato brasileiro de 1975. A Raposa, que havia perdido para o Internacional pelo campeonato nacional, deu o troco na Libertadores e venceu o jogo histórico disputado no Mineirão: 5 a 4. Os gols do Maior de Minas nessa incrível partida foram marcados por Palhinha (2), Joãozinho (2) e Nelinho. 

Uma curiosidade desse jogo foi confidenciado pelo ex-goleiro Raul Plasmann, titular naquela ocasião. “Me lembro do Figueroa ameaçando o Palhinha, dizendo que quebraria o seu nariz, e o fez com uma cotovelada. Ganhamos bem aqui e no Beira-Rio também. Palhinha jogou muito, mas o Joãozinho infernizou a defesa colorada. O time ganhou uma consistência e se encheu de confiança para ganhar a libertadores”, disse Raul Plasmann.

Joãozinho revela que a partida foi a maior apresentação de sua carreira, principalmente pelos grandes atletas que estavam dentro de campo: "O jogo contra o Internacional realmente foi o melhor jogo da minha vida. O time deles tinha Manga, Figueroa, Falcão, Lula, Caçapava, era um timaço, tanto que foi três vezes campeão nacional. O nosso time também era muito bom. Nós tínhamos perdido pra eles a final do Brasileiro, lá dentro do Beira-Rio, e logo depois teve o confronto da Libertadores e nós tivemos a sorte de ganhar por 5 a 4. Eu realmente fiz a diferença", disse o bailarino da Toca. 

No segundo jogo, válido pela primeira fase, o adversário foi o Sportivo Luqueño, do Paraguai. O jogo aconteceu em Assunção, e a Raposa não se importou por jogar longe de sua torcida, venceu por 3 a 1, com gols marcados por Roberto Batata, Nelinho e Jairzinho. 

No último jogo do primeiro turno da primeira fase da competição, o oponente foi o Olímpia. A equipe, jogando novamente na capital paraguaia, no estádio Defensores Del Chaco, empatou com adversário pelo placar de 2 a 2, depois de terminar o primeiro tempo com a desvantagem de 2 a 0. Jairzinho e Darci Menezes fizeram os gols de empate do Cruzeiro. 

Iniciando o segundo turno da primeira fase, o time celeste enfrentou o Sportivo Luqueño no Mineirão, em Belo Horizonte e despachou o rival com tranquilidade. O placar de 4 a 1 mostrou toda superioridade da equipe estrelada que consagrou os seguintes artilheiros nesse dia: Palhinha (2), Jairzinho e Eduardo Amorim.

Disposto a carimbar a classificação no grupo, a Raposa enfrentou 80 mil torcedores e o Internacional, no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, pela segunda rodada do returno da primeira fase da competição. O Time do Povo não tomou conhecimento do forte adversário e da pressão de sua torcida e venceu fora de casa com propriedade: 2 a 0, com gols marcados por Jairzinho e Joãozinho. 

O Olímpia era a única equipe a tirar pontos do Cruzeiro na Libertadores e veio para Belo Horizonte para buscar o resultado e atrapalhar as pretensões do Maior de Minas. A Raposa não teve dificuldades e aplicou nova goleada por 4 a 1. Jairzinho (2), Nelinho, Eduardo Amorim foram os artilheiros celestes do dia. Com o resultado, o Cruzeiro foi campeão do Grupo 3 com 5 vitórias e um empate, 20 gols marcados e 9 sofridos.

Segunda Fase

Único classificado do Grupo 3, a segunda etapa da Copa Libertadores de 1976 também foi composta por dois grupos formados por três times em cada. Cruzeiro, LDU de Quito e Alianza Lima compunham o Grupo 1. River Plate, Independiente e Peñarol formavam o Grupo 2. 

No primeiro jogo da segunda fase, o Cruzeiro foi até Quito, capital do Equador, e enfrentou a LDU. Assim como na primeira fase, a Raposa não foi intimidada pela pressão da torcida e venceu a equipe equatoriana por 3 a 1. Palhinha marcou duas vezes e Joãozinho fechou o placar para a Raposa. 

Três dias depois, o time celeste já estava em Lima, no Peru, para enfrentar o Alianza. Com bastante propriedade e com um futebol sério e requintado, o Maior de Minas não deu chances ao rival sul-americano e aplicou uma sonora goleada por 4 a 0. Joãozinho (2), Jairzinho e Roberto Batata marcaram para a Raposa. Seria o último gol de Roberto Batata em vida. 

Na volta para Belo Horizonte, o time celeste desembarcou e o atacante Roberto Batata imediatamente pegou a estrada rumo a Três Corações. A intenção era ver a mulher e o filho recém-nascido.  Cansado pelos jogos fora do país e pela viagem desgastante, o cabeludo da camisa 7 celeste acabou dormindo ao volante e se chocou contra dois caminhões. Eram 13 de maio de 1976, e a capital mineira parou com a tragédia que levou ao óbito um dos maiores jogadores da história da Raposa. Jairzinho, companheiro de Batata, falou muito emocionado sobre a morte do companheiro de ataque.

“Não se esperava nunca, cruel e muito sofrido. A minha esposa estava grávida e eu a levei para o Rio de Janeiro. Ao voltarmos de Lima, no Peru, depois de vencer o Alianza por 4 a 0, no Galeão-RJ eu pedi ao técnico Zezé Moreira para ficar na cidade e ver a minha esposa. Também pedi aos companheiros para não deixar o Batata pegar estrada naquela hora, pois ele só falava no filho recém nascido. Jogamos de manhã, num sol muito forte, viajamos a noite toda e ele só falava no filhinho. O desgaste do jogo, a demora no embarque, a viagem, e viemos comemorando no avião porque no Mineirão ninguém ia vencer o Cruzeiro, e não venceu. Pedi pessoalmente que ele não viajasse. Fiquei no Rio, eu e Ozires e no fim da tarde do 13 de maio eu escutei a notícia. Era tão bom driblador que driblou a todos, mas não conseguiu passar pelo destino”, comentou emocionado.

Uma semana depois e ainda muito abalado pela tragédia que levou o camisa 7, o Cruzeiro voltou a campo contra o mesmo Alianza, desta vez no Mineirão. Eduardo Amorim foi o substituto de Roberto Batata. A partida acontecia e o Cruzeiro com uma brilhante atuação ia fazendo os gols. Durante o jogo, os atletas decidiram homenagear o companheiro morto uma semana atrás e marcaram sete gols, número da lendária camisa de Batata. Placar final: 7 a 1. Jairzinho fez quatro e Joãozinho marcou três gols nesse dia triste, porém  histórico para toda a nação celeste. 

Para fechar com chave de ouro o Grupo 1 da fase semifinal da Copa Libertadores, o Cruzeiro recebeu o LDU de Quito, no Mineirão.  A partida terminou com o placar de 4 a 1 para o Maior de Minas com gols marcados por Nelinho, Jairzinho, Palhinha e Ronaldo. Partida ganha e vaga garantida para a grande final contra o River Plate. O time argentino precisou de jogo extra para levar a vaga sobre o Independiente, no clássico local.

Final

O clássico da final entre Cruzeiro e River Plate deu início a uma das maiores rivalidades do continente. A primeira partida aconteceu em Belo Horizonte, no dia 21 de julho, e o público no Mineirão foi de 58.720 pessoas. A Raposa, empurrado pela força de sua torcida, abriu 3 a 0 ainda no primeiro tempo com gols de Nelinho e Palhinha por duas vezes. Veio o segundo tempo e Mas descontou para os argentinos, mas Valdo, que havia entrado no posto de Piazza, fechou a goleada para o Cruzeiro. 4 a 1. 

Autor do gol que iniciou a primeira vitória nas finais da Libertadores, Nelinho fala com entusiasmo de ter vestido a camisa mais vitoriosa do futebol brasileiro. "No Cruzeiro tive a felicidade de ter a minha maior conquista, e ter jogado com atletas como Dirceu Lopes, Zé Carlos, Piazza, Jairzinho, além de ter jogado contra Pelé, Perfumo, Gérson, isso é impagável", disse o lateral.

Não havia critério de desempate por gols e na segunda partida disputada no Monumental de Nuñez, em Buenos Aires, no dia 28 de julho, somente a vitória interessaria ao River Plate. O empate daria o título ao Cruzeiro. Com o estádio completamente lotado, 90 mil pessoas empurraram a equipe da casa e J.J. López marcou para o River Plate na primeira etapa. Palhinha empatou logo aos três minutos do segundo tempo, porém empurrado pelos Millonarios (nome dado a torcida do River Plate), Gonzáles marcou aos 31 minutos e deu a vitória para o time da casa. Com o resultado, uma partida extra em campo neutro deveria ser marcada para decidir o maior torneio do continente sul-americano.

"Foi um absurdo o que aconteceu nessa partida, não tinha a decisão por diferença de gols porque no Mineirão fizemos 4 a 1 e no jogo de volta e fomos derrotados por 2 a 1. O segundo gol do River Plate, não querendo justificar nada, mas foi um absurdo. Houve uma falta não marcada em cima do Darci Menezes, não conseguimos vencer o River e nem a arbitragem", disse o eterno capitão Wilson Piazza, sobre a segunda partida da decisão. 

Dois dias depois, no dia 30 de julho, em uma sexta-feira, Cruzeiro e River Plate se enfrentaram no estádio Nacional, em Santiago, no Chile, para um publico de 40 mil presentes. O Cruzeiro começou melhor no jogo e Nelinho abriu o marcador aos 24 minutos, placar esse que deu números finais ao primeiro tempo. Na segunda etapa, Ronaldo ampliou para a Raposa aos 10 minutos, dando grande vantagem para o time mineiro, porém com uma reação rápida, Mas aos 14 e Urquiza aos 19 minutos empataram a partida. O jogo seguiu disputado até os 43 minutos da etapa final quando Palhinha sofreu falta na entrada da área. O lance foi bastante comemorado pelos brasileiros já que Nelinho era um exímio cobrador de falta e dificilmente perdia chances daquela distância. O lateral-direito ajeitou a bola e se virou para ganhar alguns passos para a cobrança, foi aí que apareceu a esperteza do atacante Joãozinho que com um belo toque colocou a bola por cima da barreira e longe do alcance do goleiro Landaburu, que apenas observou a bola bater e escorrer as redes. 3 a 2 para o Maior de Minas, festa em Belo Horizonte e por todo território nacional. Depois do Santos, o Cruzeiro era o segundo time do Brasil a conquistar o maior torneio disputado no continente. 

"Tem título que você ganha e tem título que você conquista, esse foi conquistado com muita luta e com muitos acontecimentos, alegres e tristes, mas que valeram a pena porque não só enriqueceu a nossa história, mas a história de cada um dos jogadores que estavam defendendo as cores do Cruzeiro", falou Piazza. 

Artilheiro daquele memorável título com 13 gols marcados, Palhinha fala da conquista com muita emoção e alegria. O jogador enalteceu os companheiros e o Clube pela brilhante campanha que marcou a todos os cruzeirenses. O ídolo eterno falou do lance que deu origem ao gol marcado por Joãozinho e que ficou marcado na história do maior Clube de Minas Gerais, que na época se tornou o maior Clube do continente sul-americano.

"Essa falta foi feita em mim. O beque do River me derrubou quando eu ia em direção ao gol. O River estava formando a barreira e a bola estava no chão. O Piazza estava perto, com o Nelinho se aproximando de mim. Eu pedi ao Piazza para tocar a bola rápido pra mim. Foi quando veio o Joãozinho, de forma irresponsável, entrou na frente dos dois e bateu a falta que deu o título tão sonhado pelo torcedor. O interessante é que o Joãozinho nunca tinha batido uma falta antes e nunca bateu depois. Naquele dia, um espírito baixou no corpo dele. Só pode ser isso", falou o artilheiro da competição.

"Tudo tem relação com o bom ambiente que a gente tinha. A gente era uma grande equipe, com muita qualidade técnica e jogava um futebol ofensivo. Naquela oportunidade, eu fiz 13 gols e o Jairzinho fez 11", finalizou Palhinha.

CRUZEIRO 3 x 2 RIVER PLATE-ARG

Motivo: 3ª jogo da Final da Taça Libertadores
Data: 30/07/76
Local: Estádio Nacional, em Santiago, Chile
Público: 35.182 pagantes
Renda: Cr$ 653.331,00
Árbitro: Alberto Martínez (Chile)
Gols: Nelinho, aos 24 min. do 1º tempo; Eduardo, aos 10 min., Oscar Mas, aos 13 min., Urquiza, aos 17 min., e Joãozinho, aos 42 min. do 2º tempo
Cruzeiro: Raul; Nelinho, Moraes, Darci Menezes e Vanderley; Piazza (Valdo), Zé Carlos e Ronaldo; Eduardo, Palhinha e Joãozinho
Técnico: Zezé Moreira
River Plate: Landaburu; Comelles, Lonardi, Artico e Urquiza; Alonso, Merlo e Sabella; González, Luque e Oscar Más (Crespo)
Técnico: Ángel Labruna
Cartões amarelos: Darci Menezes (Cruzeiro); Merlo e Artico (River Plate)
Cartões vermelhos: Ronaldo (Cruzeiro); Alonso (River Plate)

Confira os programas da TV Cruzeiro com a participação de alguns heróis daquela brilhante conquista celeste: 

https://www.youtube.com/watch?v=lDv7xhShlPw&list=PLVgI-FNwvwCFROh3Bce7FqWXBMdr43qk-&index=5

https://www.youtube.com/watch?v=NIE24vbTE98&index=6&list=PLVgI-FNwvwCFROh3Bce7FqWXBMdr43qk-

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